sábado, 3 de maio de 2025

 CANTICO DE ENTRADA (do livro A Missa dos Oprimidos)

Hamilton Raposo 

A benção a todas as Marias,

Marias esquecidas,

Marias violentadas,

Marias prostituidas

A benção a todas Marias.

Marias sem terras,

Marias famintas,

Marias desaparecidas.

A benção a todas as Marias.

Marias sem oportunidades,

Marias excluídas,

Marias maltratadas. 

A benção, meu senhor Deus,

Pai e Protetor.

A benção meu Senhor Deus,

Amado e Justiceiro.

A benção, meu senhor Deus.

Aleluia, Aleluia, …

quinta-feira, 1 de maio de 2025

 

POEMA PARA DEUS

 

PARTE I

 O esterco estava sobre a mesa,

 O banquete seria servido,

 Começava o festival da decadência.

 Estavam reunidos

 Os famintos incongruentes

 Vorazes da devassidão,

 Crustáceos do anonimato

 E da escuridão absurda da alma humana.

 

Todos

 Transvestidos em legalistas

 E leguleios do passado hipócrita

 Que satisfazem na mesa

 A sua fome idólatra,

 Com o caos da moralidade.

 

Alimentam-se do seu próprio vômito,

 E no pedestal do medo e da fantasia,

 O ódio se fez vida

 E do ódio criaste uma geração.

 

Assim ruminas o vento,

 Com sussurros inaudíveis,

 Lamentam a decomposição enigmática do rei.

Satisfeitos,

 Os varões de moral marmórea

 Estupram a verdade

 E se ajoelham aos pés santíssimos,

 Confessando profanamente

 A bem-aventurança da mentira.

 

PARTE II

 A leveza do pecador

 É a graça da vingança,

 É a graça do humilde,

 É a tua vontade em permitir

 Ao intrépido perseguidor,

 Ao nefasto moralista,

 Ao príncipe da desigualdade e do ódio,

 Ao maligno da devassidão,

 Que encontre no seu caminho

 Na escuridão úmida

 Das tormentas destruidoras

 E das erupções ardentes,

 Que queimarão a tua alma disforme,

 Falsa,

 Hipócrita e destruidora.

 

De ti nada restará,

 Do pó vieste

 E ao pó retornarás...

 E não levarás coroa de flores

 E o teu jazigo será esquecido

 No anonimato dos defuntos

 E na imensidão do inferno.

 

Foi consumada

 A vingança da graça,

 A vingança do humilde

 E daquele que se fez oprimido.


 PARTE III

 Por onde tu andas

 Se deixaste sem nenhuma misericórdia

 Aqueles que te deram vida,

 Aqueles que te dão vida?

 

Por onde tu andas

 Se deixaste triunfar

 O príncipe opressor,

 O Senhor da Maldade,

 O cristão devasso,

 Incenso do ódio

 E perseguidor dos fracos e dos oprimidos?

 

Por onde tu andas

 Se deixaste morrer e sangrar

 Aqueles que deveriam ir a ti,

 Vítimas da intolerância

 que clamam pelo teu nome?

 

Por onde tu andas

 Se deixaste a sangria diária

 Dos imperfeitos

 E das Marias de todos os dias

 Apunhaladas pela espada falsa do amor?

 

Por onde tu andas

 Se deixaste que o amor manso e pacífico

 Fosse covardemente

 Assassinado pela mentira e violência?

 

Por onde tu andas

 Se deixaste de servir a mesa

 Para florescer a devassidão da fome,

 E permitiste que o carvão,

 O calor insalubre

 E a lama de Mariana

 Estivesse à mesa?

 

Por onde tu andas

 E por que permites

 A inversão da lógica da igualdade

 E da subalterna divisão do pão nosso de cada dia?

 Por onde tu andas?

EUESTOU AQUI”!

sexta-feira, 11 de abril de 2025

 COLÉGIOS. MESTRES E DOUTORES DO SABER (do Livro Minhas Memórias de São Luís)

Hamilton Raposo Miranda Filho


Todos os dias eu agradeço por nascer e morar na melhor e mais bonita cidade do Brasil. São Luís é riquíssima em cultura, gastronomia, arquitetura e belezas naturais. Nenhuma cidade do Brasil reúne esses elementos com tamanha harmonia e predominância.


São luís também tem seus encantos na educação. Colégios que resistem, outros que fisicamente deixaram de existir, mas insistem em permanecerem vivos na memória da cidade. 


Professores, grandes mestres da educação, escolas que se eternizaram na história de São Luís e que marcaram a vida social da cidade, formando cidadãos e cidadãs, numa época em que as aulas eram ministradas com o suporte de giz, quadro negro e cartolina. E aqui vai uma lembrança de uma geração que viveu o privilégio de conhecer estas escolas e seus grandes mestres:


1- Instituto Raimundo Cerveira e Colégio Zoé Cerveira - Família Nascimento de Moraes.

2- Colégio Conceição de Maria - Professoras Maria Ferreira e Lucinha Ferreira.

3 Colégio São Luís Gonzaga - Professora Zuleide Bogéa.

4- Colégio Liceu Maranhense - Professores José Rosa, Sued, Concita Quadros, Luís Aranha e muitos outros.

5- Colégio Maristas - Irmão Jorge, Irmão Pio, Irmão José...

6- Colégio São Luís - Professores Luís Rego e Luís Augusto.

7- Colégio Ateneu Teixeira Mendes - Professor Solano Rodrigues.

8- Colégio Cardoso Amorim - Professor Capitulino.

9- Colégio Centro Caixeiral - Professores Washington e Álvaro.

10 - Academia do Comércio: Professor Waldemar Carvalho.

11- Colégio Santa Teresa: Madre Câmara, Madre Coutinho, Madre Guiomar, Madre Lima.

12 - Colégio Batista: Professor Figueiredo.

13 - Colégio Rosa Castro - Professora Zuíla.

14 - Escola Técnica - Professor Ronald Carvalho.

15 - Escola Santa Terezinha - Família Valois.

16 - Colégio Dom Bosco - Professor Luís Pinho e Professora Maria Isabel.

18 - Colégio Girassol - Professora Déa Vasques e Ana Maria Belfort.

19 - Colégio São Vicente de Paula

20 - Curso de Inglês John Kennedy - Professora Jean Mouse Camarão.


 Mestres, os doutores do saber, merecerão sempre o registro da história pela dedicação na arte de educar. Aqui cito alguns que passaram pela minha vida e me marcaram para sempre: Dimas, Raimunda Santos, Maria da Graça Jorge, Concita Quadros, Sued, Monteiro, Cota Varela, Adelaide, dona Severa, Floriano de Jesus, Bibiano, Ramiro Azevedo, Botão, Conceição Bastos, e muitos outros que levarei na memória para sempre.


Confesso com orgulho e admiração que tive a honra de estudar em algumas dessas escolas e de ser aluno destes grandes Mestres.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

 O FUTURO DA CLASSE MÉDIA NO CAPITALISMO, AINDA EXISTE ESPERANÇA PARA O SOCIALISMO

HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO


Todas as potências da velha Europa uniram-se para combater os novos modelos ideológicos que contrariavam os privilégios das classes dominantes. E assim, o Papa Pio IX, o Czar Nicolau I, Metternick, os radicais franceses e os policiais alemães, todos combateram a nova forma política e econômica advinda de Karl Marx, o Materialismo Dialético.


Em 1848, Karl Marx na cidade de Londres, afirmou que já “é tempo dos comunistas exporem a todo mundo o seu modo de ver e pensar, as suas tendências, expondo ao mundo, o que seja o espectro do comunismo.”


A história de todas as sociedades que existiram até os nossos dias, sempre houve a história de lutas entre as classes sociais: homens livres e escravos, patrícios e plebeus, barões feudais e servos, patrões e empregados, opressores e oprimidos. A luta de classe é uma transformação revolucionária na construção de uma sociedade mais igualitária. 


A evolução das sociedades coincide com a revolução industrial, que fez surgir novas classes sociais. A exploração do trabalho se tornou um lugar comum. O crescimento do mercado fez com que a manufatura se tornasse insuficiência, surge a máquina, a produção industrial e o novo burguês.


Anteriormente, a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais e os sentimentos idílicos. Destruiu campos, áreas ocupadas, destruiu as relações humanas, restringindo todas as relações no “pagamento em dinheiro.”


O Burguês moderno, através da exploração do mercado mundial, retirou da indústria sua base nacional, tonando-se cosmopolita e muito pior, disseminou guerras por capital e lucro, destruiu singularidades próprias de cada povo e transformou o vassalo em defensor do capital e o oprimido em defensor do opressor. Surge o “Eu Civilizado.”


O “eu civilizado” é o consumidor de produtos novos, produtos para as “necessidades novas”, geralmente produzidos em outros países. O “eu civilizado” perde o seu contato cultural e intelectual com o seu lugar e consome a produção cultural e intelectual de um outro lugar, como se fosse um patrimônio comum de todos. O novo burguês, opressor por excelência, obriga todas as nações, sob pena de extinção, a adotarem o novo modelo de pensamento da burguesia opressora. 


A burguesia, a elite do capital, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade e o capital em poucas mãos. A participação popular e a força produtiva foi substituída pela livre concorrência como uma constituição política e social, com o domínio econômico e político da nova burguesia, sem nenhuma participação do trabalhador.


E a cada crise que acontece na sociedade, grande parte dos produtos fabricados ou industrializados, são destruídos pelo capital, como também são destruídos a força produtiva, os trabalhadores são demitidos e a sociedade se vê aniquilada. As crises sociais suprimem os meios legais de subsistência da sociedade, a indústria e o comércio ficam impotentes para a nova força do capital, o capital especulativo e volátil. A força deste capital esmaga o trabalhador e a classe que ascendeu socialmente, a classe média, que ao receber o seu salário, devolve parte do salário a elite burguesa, em forma de aluguel, financiamento, plano de saúde, empréstimos consignados, pagamentos de tributos e pagamentos com educação


A nova classe social, a classe média, empobrece com o tempo e cai no proletariado. Suas habilidades são desvalorizadas pelos novos métodos de produção e pela idade no trabalho. A perda social e econômica é o caminho sem volta da classe média.


O capital sobreviverá somente da especulação, exploração e da produção de armas e guerras. As armas produzidas, poderão voltar-se contra os senhores do capital. Assim será!

quinta-feira, 27 de março de 2025

 REI, REINALDO FARAY (sem correção do Livro Personagens de São Luís)

HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO

Quem poderia imaginar que um maranhense Cururupu, descendente de libaneses, poderia ser o maior e mais prestigiado ator, diretor, autor, produtor e bailarino clássico do Maranhão e um dos maiores do Brasil? 


Pois este maranhense que saiu de Cururupu, cidade do litoral maranhense, para estudar e se tornar oficial da Marinha Brasileira na cidade de Belém do Pará, acabaria descobrindo nesta cidade o talento para representar, produzir peças teatrais e dançar. Este grande maranhense se chamava Reinaldo Faray.


A vida teatral de Reinaldo Faray apesar de se iniciar em Belém, ganhou contorno profissional no antigo território do Amapá, onde dirigiu a Fundação de Cultura daquele território.


Reinaldo Faray estudou teatro e ballet clássico na Fundação Brasileira de Teatro na cidade do Rio de Janeiro, e no início da década de 1950, a convite do SESC, retornou para o Maranhão e se estabeleceu em São Luís, onde fundou nesta instituição o Teatro Escola do SESC. Nesta mesma década, se desliga do SESC e funda um grupo de teatro chamado de Teatro de Equipe do Maranhão.

Algum tempo depois, no início da década de 1960, Reinaldo Faray fundou o Teatro Experimental do Maranhão, o TEMA, que aglutinou grandes artistas de São Luís como Eugênio Giust, Lúcia Nascimento, Regina Teles, Aldo Leite, Tácito Borralho, Carlos Lima, Domingos Tourinho e tantos outros artistas que desfilaram os seus talentos artísticos juntos com Reinaldo Faray no Teatro Artur Azevedo, Teatro da Escola Técnica, Teatro da Igreja de São Pantaleão e no Teatro do SESC. Ressalto que a primeira peça teatral que assistir foi no Teatro da Igreja de São Pantaleão e chamava-se “As Sandálias do Pescador” e que tinha como atores principais, Reinaldo Faray e Carlos Lima.


O Teatro Experimental do Maranhão representou para as artes cênicas do Maranhão o que o Teatro Tablado, um grupo e escola de teatro fundado por Maria Clara Machado, representou para as artes cênicas do Rio de Janeiro e do Brasil.


Reinaldo Faray tinha inúmeras facetas. Produziu, dirigiu e atuou em diversos programas de televisão, como telenovelas, ballet e entretenimento; produziu, dirigiu e atuou em inúmeras peças teatrais em Macapá, Belém, São Luís e outras capitais do Brasil.


Entretanto, o Reinaldo Faray que conhecíamos e privamos um pouco da sua convivência, era o Reinaldo bailarino, o pioneiro do ballet clássico no Maranhão e que fundou a primeira escola de ballet em São Luís, situada no Clube das Mães. Através da Escola de Ballet do Clube das Mães vieram todos os bailarinos e bailarinas do Maranhão, todos com talento reconhecidos no Brasil e no mundo.


Aquele homem que produzia, dirigia e atuava no Teatro Experimental do Maranhão e que encantava a sociedade ludovicense com passos de “plié, feté, petit jeté ou tendu,..”esperava pacientemente fevereiro chegar e deixava tudo que era clássico de lado e mergulhava na cultura popular, transformando-se em um grande folião, participando dos desfiles de fantasias nos clubes sociais da época ou desfilando como destaque na Favela do Samba, sua escola preferida.


E como toda farra, alegria e despojamento tinha um fim, tudo acabava e começava na quarta-feira de cinzas. Reinaldo Faray não descansava, o prazer pela dança e pelo teatro recomeçava e como fazia todos os anos, começava com os ensaios da peça teatral a Paixão de Cristo.


Reinaldo Faray de despediu da vida aos 72 anos, no dia 18 de fevereiro de 2003. E aquele adolescente que saiu de Cururupu para ser oficial da Marinha Brasileira, se transformou no maior artista de artes cênicas do Maranhão e com certeza não merecia apenas o nome em uma concha artística como homenagem. O Maranhão tem um débito muito grande com seu maior artista.


Reinaldo Faray, presente!

sábado, 22 de março de 2025

 CINEMAS E A IMPORTÂNCIA CULTURAL DOS TAJRAS (do livro Crônicas das Minhas Memórias)

Hamilton Raposo Miranda Filho


Dia desses conversei com um amigo sobre cinema, ou melhor, conversei sobre filmes e salas de exibição. O amigo, por ser mais jovem, não conheceu os antigos cinemas, lembrou-se apenas do Cine Roxy e das sessões pornôs que eram exibidas na década de 1980. Não conheceu o Éden, Rialto, Monte Castelo ou Passeio. Nasceu na decadência das grandes salas de exibição.


Comentei com ele sobre a importância de José Bernardo Tajra no contexto cultural da cidade. José Bernardo foi um dos maiores conhecedores de cinema no Brasil e um grande colecionador, seu acervo era fantástico. Possuía todos os filmes da Metro Gold Meyer e se dizia portador de uma doença chamada “metrite”, dada a sua paixão pelos filmes produzidos pela Metro. José Bernardo era filho do libanês Moisés Tajra, o maior empresário de cinema que o Maranhão já teve.


A nossa conversa se transformou em um monólogo, dada a minha verborrágica exposição sobre Moisés Tajra. O empresário foi proprietário dos Cines Éden, Roxy, Rialto, Rival e Ribamar (este localizado na cidade de São José de Ribamar). O Cine São Luís, Monte Castelo e Passeio eram de uma outra família descendente de libaneses, os Dualibe, da cidade de Viana. O Cine São Luís funcionou no Teatro Artur Azevedo. Era muito cinema para uma cidade com uma população de 300 mil habitantes. Talvez por serem uma das poucas diversões da cidade, os cinemas tinham público e qualidade.


A conversa voltou-se para o campo afetivo e confessei que o primeiro filme que assistir foi “A Paixão de Cristo”, no Cine Ribamar, em companhia da minha mãe, que chorou a sessão inteira, emocionada com o sofrimento de Jesus. O Cine Ribamar ficava ao lado da casa dos meus pais, naquele município. E como em toda cidade do interior, havia no Cine Ribamar um serviço de alto-falantes, “A Voz Caramuru”, que anunciava as atrações cinematográficas e os pedidos musicais. 


Logo depois da “Paixão de Cristo”, assisti a alguns filmes de Mazzaropi e a algumas chanchadas da Atlântida, no Cine São Luís. Em todas as ocasiões estava sempre na companhia dos meus pais ou do meu irmão José Franklin ou da minha irmã Hamilena. Meu pai tinha um gosto apurado, preferia a ópera e os filmes do Charles Chaplin. Seu gosto musical também era refinado, e a prova disso era a sua fantástica coleção de discos de músicas clássicas, que conservo, junto com a coleção de ópera. Alguns destes discos são de 45 rot./min.


A década de 1960 talvez tenha sido a mais profícua para o cinema, todas as salas exibiram os grandes clássicos de crítica e de bilheteria. A sensibilidade artística e o bom gosto estético de José Bernardo e a visão comercial de Moisés Tajra fizeram de São Luís uma cidade de cinemas.


A minha lembrança cinematográfica vai muito além da “Paixão de Cristo”, dos filmes de Carlito ou das chanchadas da Atlântida. Uma das melhores experiências que tive com a chamada telona foi ouvir o grito do Tarzan, e tenho quase certeza que toda a minha geração ouviu ou repetiu o grito do Tarzan. 


A década produziu filmes como Lawrence da Arábia, Bem-Hur, o premiadíssimo musical A Noviça Rebelde, o épico Spartacus, o revolucionário Perdidos na Noite, a ficção extraordinária de 2001: Uma odisseia no espaço, os românticos Dr. Jivago, Candelabro Italiano e Romeu e Julieta, o assustador Bebê de Rosemary, o clássico do western Os Brutus Também Amam e o lento e apaixonante pop do cinema francês Um homem e Uma mulher. Todos exibidos em salas com lotação completa. Foram muitos filmes e muitas histórias. Certa vez contabilizei mais de 100 filmes de sucesso da década de 1960, incluindo o Cinema Novo brasileiro.


A diferença de idade entre mim e o interlocutor não impediu que formássemos um consenso: São Luís é uma cidade vocacionada ao cinema.

sábado, 8 de março de 2025

 PREPARAÇÃO PARA O EXAME DE ADMISSÃO (do livro Crônicas das minhas memórias).

HHamilton Raposo Miranda Filho


Em 1969 os meus pais decidiram que eu deveria estudar na mais tradicional escola do Maranhão, o Liceu Maranhense. Assim tive que deixar o Colégio Zoé Cerveira, uma escola menor, onde fiz uma parte do ginásio. O Zoé Cerveira era de propriedade de uma família de intelectuais e de renomados professores, a família Nascimento de Moraes. Ali fui aluno de grandes mestres, como o professor e intelectual Paulo Nascimento de Moraes, um dos maiores conhecedores da geopolítica israelense e do mundo árabe; Raimundo Nascimento de Moraes, excelente matemático, que, com sua formidável didática, fazia com que os alunos se apaixonassem por equações, contas e números; dona Nadir, era um caso a parte: rígida e extremamente disciplinadora, ensinava Geografia e o com seu vozeirão nos fazia conhecer o mundo; e por fim o imortal poeta, um dos primeiros ambientalistas brasileiros e esquerdistas de carteirinha, Nascimento de Moraes Filho, que fazia da sala de aula uma reunião da academia de letras, recitava poemas e ensinava Português, por meio de obras de inestimável valor literário. A eles sou eternamente grato.


Por causa deles adquiri uma certa base escolar, mas precisava de um reforço para enfrentar o dificílimo exame de admissão do Liceu Maranhense, espécie de vestibular para o colegial; no meu caso para a 4ª série do ginásio. Eram cinquenta vagas para mais de mil inscritos. Tinha necessidade de conhecimento adicional, sobretudo, nas disciplinas de Português e Matemática. Coube às professoras Ceci Mota e Maria da Graça Jorge, todas renomadíssimas, a tarefa de me ensinarem todos os macetes de Matemática e Português, respectivamente, para enfrentar o exame de admissão do Liceu Maranhense.


As aulas de Matemática da professora Ceci Mota, eram ministradas na sala de jantar de sua residência, uma casa muito simpática, situada na Rua do Pespontão. A professora Ceci Mota tinha um irmão que divertia a todos os alunos com sua malandragem e picardia, um boêmio e contador de histórias e de estórias. Conheci-o pelo apelido de “Maneta”. Ele dava o seu show à parte, antes de iniciar a aula preparatória, que acontecia duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras, pela manhã.


As aulas de Português da professora Maria da Graça Jorge, uma renomada professora maranhense e reconhecida pela disciplina e saber linguístico, eram ministradas também em sua residência, uma bela casa de dois andares, situada no Caminho da Boiada. Neste imóvel havia um pequeno cômodo adaptado para sala de aula, com carteiras e um quadro verde, diferente dos quadros negros do Colégio Zoé Cerveira. As aulas, muito rígidas e disciplinadas, aconteciam também duas vezes por semana, no período vespertino.


Chegou o dia do tão esperado exame de admissão, eu me sentia preparadíssimo para as provas da seleção. Fui até o local das provas acompanhado da minha mãe, dona Helena, que não deixaria jamais o seu filho, conhecido pela sua hiperatividade, ir sozinho se submeter a tão importante exame para o mais tradicional colégio do Maranhão.


Fiz a seleção em janeiro, e quinze dias depois, na véspera de um carnaval, saiu o tão esperado resultado. Era enfim um liceista, tinha sido aprovado com louvor para o Liceu Maranhense.