A RESISTENCIA DA
VINAGREIRA E DO JONGOME.
HAMILTON RAPOSO DE
MIRANDA FILHO
Existe uma grande disputa
no mundo contemporâneo e particularmente nos canais fechados de televisão, uma
guerra sem fronteiras entre os adeptos da alimentação tipo fast food e os adeptos
da alimentação natural, refletindo a disputa, na quantidade de programas e de reality
shows na televisão. Aqui em São Luís esta disputa é bem mais antiga e a mistura
de ingredientes culinários parece ser da nossa herança cultural e multirracial.
Confesso que sou de uma
época em que lanche era merenda, lancheira era merendeira, professor era
professor e tia era irmã da minha mãe ou do meu pai. A hierarquia era preservada
e a alimentação preparada sem alternativos. A merenda que eu levava para a
escola era preparada pela minha mãe, pão com ovo ou pão com goiabada, refresco
de maracujá ou laranjada. Não existia suco. Suco é contemporâneo. Cola Jesus
fugia o gás e ficava sem sabor.
A contemporaneidade
gastronômica ludovicense está relacionada com a chegada do milk shake de
chocolate e do misto quente na lanchonete da Loja Acácia e com o Restaurante
Palheta no Aeroporto do Tirirical. O pão com manteiga ou com goiabada foi
substituído pelas novidades da Loja Acácia. Aos poucos os hábitos provincianos
ganharam feição americanizada e aos poucos íamos deixando de ser maranhense.
O café da manhã agora é
breakfast. Substituiu-se o mingau de milho ou de tapioca, o cuscuz e beiju, por
granola, pão integral, queijo branco e geleia. Alguns teimam em comer panquecas
no café da manhã. Cará, macaxeira e bolo frito aos poucos saíram de cena.
Entraram novos ingredientes no cardápio. O famoso e inigualável Cuscuz Ideal
cedeu lugar aos cereais, e a primeira vez que ouvir alguém falar de cereais
matinais, foi através do meu amigo Adolfo Paraiso há muito tempo, quando ainda
fazíamos judô com o Professor Major Vicente Leitão da Rocha.
A tradicional juçara
com farinha d’agua e camarão seco, ganhou uma versão sofisticada, agora é açaí
e passou-se a tomar com mel, banana, guaraná e com a indigesta granola.
Combinações saudáveis, porem aculturais.
Substituir o peixe
pedra, a pescadinha boca-mole ou o uritinga por salmão de cativeiro, além de
ser um absurdo, não tem o sabor da nossa maranhensidade gastronômica. Trocar a
vinagreira, o jongome ou cheiro verde por acelga, brócolis ou alho-poró, é fugir
das nossas raízes, é deixar o bumba-meu-boi e sair dançando a cumbia como se estivéssemos
em Bogotá.
Proponho uma
resistência gastronômica, uma guerra aos invasores da nossa cultura
gastronômica, para não se trocar o nosso tradicional cachorro quente com a
grife do inimitável Companheiro, pelo invasor hot-dog ou cachorro quente
gourmetizado; o nosso tradicional caldo de cana pelo sulista e capitalista suco
de frutas vermelhas; o azeite de coco babaçu pelo condenado óleo de canola ou o
famosíssimo e delicioso pão cheio pelo igualmente capitalista, invasor e
dominante hambúrguer. Não troque sua pitomba pelo transgênico morango e muito
menos sua seriguela pelo azedo kiwi. Resista!
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