domingo, 5 de janeiro de 2025

 

A RESISTENCIA DA VINAGREIRA E DO JONGOME.

HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO

Existe uma grande disputa no mundo contemporâneo e particularmente nos canais fechados de televisão, uma guerra sem fronteiras entre os adeptos da alimentação tipo fast food e os adeptos da alimentação natural, refletindo a disputa, na quantidade de programas e de reality shows na televisão. Aqui em São Luís esta disputa é bem mais antiga e a mistura de ingredientes culinários parece ser da nossa herança cultural e multirracial.

Confesso que sou de uma época em que lanche era merenda, lancheira era merendeira, professor era professor e tia era irmã da minha mãe ou do meu pai. A hierarquia era preservada e a alimentação preparada sem alternativos. A merenda que eu levava para a escola era preparada pela minha mãe, pão com ovo ou pão com goiabada, refresco de maracujá ou laranjada. Não existia suco. Suco é contemporâneo. Cola Jesus fugia o gás e ficava sem sabor.

A contemporaneidade gastronômica ludovicense está relacionada com a chegada do milk shake de chocolate e do misto quente na lanchonete da Loja Acácia e com o Restaurante Palheta no Aeroporto do Tirirical. O pão com manteiga ou com goiabada foi substituído pelas novidades da Loja Acácia. Aos poucos os hábitos provincianos ganharam feição americanizada e aos poucos íamos deixando de ser maranhense.

O café da manhã agora é breakfast. Substituiu-se o mingau de milho ou de tapioca, o cuscuz e beiju, por granola, pão integral, queijo branco e geleia. Alguns teimam em comer panquecas no café da manhã. Cará, macaxeira e bolo frito aos poucos saíram de cena. Entraram novos ingredientes no cardápio. O famoso e inigualável Cuscuz Ideal cedeu lugar aos cereais, e a primeira vez que ouvir alguém falar de cereais matinais, foi através do meu amigo Adolfo Paraiso há muito tempo, quando ainda fazíamos judô com o Professor Major Vicente Leitão da Rocha.

A tradicional juçara com farinha d’agua e camarão seco, ganhou uma versão sofisticada, agora é açaí e passou-se a tomar com mel, banana, guaraná e com a indigesta granola. Combinações saudáveis, porem aculturais.

Substituir o peixe pedra, a pescadinha boca-mole ou o uritinga por salmão de cativeiro, além de ser um absurdo, não tem o sabor da nossa maranhensidade gastronômica. Trocar a vinagreira, o jongome ou cheiro verde por acelga, brócolis ou alho-poró, é fugir das nossas raízes, é deixar o bumba-meu-boi e sair dançando a cumbia como se estivéssemos em Bogotá.

Proponho uma resistência gastronômica, uma guerra aos invasores da nossa cultura gastronômica, para não se trocar o nosso tradicional cachorro quente com a grife do inimitável Companheiro, pelo invasor hot-dog ou cachorro quente gourmetizado; o nosso tradicional caldo de cana pelo sulista e capitalista suco de frutas vermelhas; o azeite de coco babaçu pelo condenado óleo de canola ou o famosíssimo e delicioso pão cheio pelo igualmente capitalista, invasor e dominante hambúrguer. Não troque sua pitomba pelo transgênico morango e muito menos sua seriguela pelo azedo kiwi. Resista!

 

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