domingo, 14 de setembro de 2025

 

PENINSULA OU PONTA D’ AREIA, A OUSADIA DE FELIPE CAMARÃO E A RESISTÊNCIA DO REGGAE.

HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO (do livro Lembranças das Minha Memórias)

A Ponta d’ Areia virou a “península” e se transformou. A bucólica e inexplorável praia, alcançada somente pela lenta e barulhenta lancha de “chocolate”, perdeu seus pés de murici, canapu ou bombom do mato e ganhou edifícios ares de modernidade e problemas.

São Luís apesar da sua vocação em virar Paris, se contentava com o bucolismo do centro histórico e com as aventuras na lancha de “chocolate” em direção à Praia da Ponta d’ Areia. Ninguém se preocupava com mobilidade urbana, VLT e BRT tudo parecia assuntos de ficção científica, o que preocupava mesmo o maranhense era as oscilações das marés, maré cheia ou maré baixa, condições essenciais para uma viagem tranquila da Praia do Caju até a Ponta d’Areia.

Havia na cidade alguns que rejeitavam o transporte pela lancha, preferiam fazer o trajeto da baia de São Marcos a nado. Arriscavam a vida e disputavam com a lancha de chocolate quem chegava primeiro na praia, e dentre estes, Felipe Camarão, pioneiro da natação em mar aberto de longa e curta distância no Maranhão.

A construção da Ponte do São Francisco tirou o romantismo da travessia e transformou a Ponta d’Areia em “península”. As dunas e a vegetação nativa deram lugar a prédios e condomínios e o ponto de “areia movediça”, lugar que “engolia as pessoas”, considerado o lugar mais perigoso de São Luís, se transformou em espigão. A ponte de São Francisco trouxe uma novidade para os boêmios, estudantes, solteiros desocupados e notívagos, a Peixaria Carajás, que servia uma suculenta e gordurosa peixada, ornamentada com um ovo cozido em cada prato, refeição que curava ressaca e recuperava qualquer gasto energético noturno que resistiu bravamente por décadas, alimentando corpos e almas.

A ponte diminui o risco da travessia e facilitou o acesso ao bairro do São Francisco.  A sensação de aventura havia acabado. A urbanização acabou com os pés de murici e de bombom do mato. A praia estava acessível. Os bares tomaram conta da praia e uma turma que jogava futebol e vôlei, começava a se reunir aos sábados e domingos e dessa turma vale lembrar de Sérgio Cão, Ribinha, André, Riba Simões, Danilo Brito Passos, Clineu Coelho, Afonsinho, Nélio Tavares, Tininho, Catel, Reges Sales, Fernando Lameiras, Chicó e muitos outros que continuam fazendo festa e farra em outros lugares, inclusive no céu.

O segundo momento histórico e importante de ocupação da Ponta d’ Areia foi a chegada da batida compassada dos clubes de reggae. A Ponta d’ Areia resistia em se transformar em Península através do reggae e democraticamente dizia não a qualquer investida capitalista no lugar, afinal de contas a Ponta d’ Areia era do povo. O reggae se tornou um negócio e o bairro virou a Península, assimilando todas as tribos, inclusive o reggae, que continua resistindo mesmo que timidamente, mais informando sempre, que “a praia é de todos, como o céu é do avião”.