PENINSULA OU PONTA D’ AREIA, A
OUSADIA DE FELIPE CAMARÃO E A RESISTÊNCIA DO REGGAE.
HAMILTON RAPOSO DE MIRANDA FILHO (do livro Lembranças das
Minha Memórias)
A Ponta d’ Areia virou a “península” e se transformou. A
bucólica e inexplorável praia, alcançada somente pela lenta e barulhenta lancha
de “chocolate”, perdeu seus pés de murici, canapu ou bombom do mato e ganhou
edifícios ares de modernidade e problemas.
São Luís apesar da sua vocação em virar Paris, se contentava
com o bucolismo do centro histórico e com as aventuras na lancha de “chocolate”
em direção à Praia da Ponta d’ Areia. Ninguém se preocupava com mobilidade
urbana, VLT e BRT tudo parecia assuntos de ficção científica, o que preocupava
mesmo o maranhense era as oscilações das marés, maré cheia ou maré baixa,
condições essenciais para uma viagem tranquila da Praia do Caju até a Ponta
d’Areia.
Havia na cidade alguns que rejeitavam o transporte pela
lancha, preferiam fazer o trajeto da baia de São Marcos a nado. Arriscavam a
vida e disputavam com a lancha de chocolate quem chegava primeiro na praia, e
dentre estes, Felipe Camarão, pioneiro da natação em mar aberto de longa e
curta distância no Maranhão.
A construção da Ponte do São Francisco tirou o romantismo da
travessia e transformou a Ponta d’Areia em “península”. As dunas e a vegetação
nativa deram lugar a prédios e condomínios e o ponto de “areia movediça”, lugar
que “engolia as pessoas”, considerado o lugar mais perigoso de São Luís, se
transformou em espigão. A ponte de São Francisco trouxe uma novidade para os
boêmios, estudantes, solteiros desocupados e notívagos, a Peixaria Carajás, que
servia uma suculenta e gordurosa peixada, ornamentada com um ovo cozido em cada
prato, refeição que curava ressaca e recuperava qualquer gasto energético noturno
que resistiu bravamente por décadas, alimentando corpos e almas.
A ponte diminui o risco da travessia e facilitou o acesso ao
bairro do São Francisco. A sensação de
aventura havia acabado. A urbanização acabou com os pés de murici e de bombom
do mato. A praia estava acessível. Os bares tomaram conta da praia e uma turma
que jogava futebol e vôlei, começava a se reunir aos sábados e domingos e dessa
turma vale lembrar de Sérgio Cão, Ribinha, André, Riba Simões, Danilo Brito
Passos, Clineu Coelho, Afonsinho, Nélio Tavares, Tininho, Catel, Reges Sales, Fernando
Lameiras, Chicó e muitos outros que continuam fazendo festa e farra em outros
lugares, inclusive no céu.
O segundo momento histórico e importante de ocupação da Ponta
d’ Areia foi a chegada da batida compassada dos clubes de reggae. A Ponta d’
Areia resistia em se transformar em Península através do reggae e
democraticamente dizia não a qualquer investida capitalista no lugar, afinal de
contas a Ponta d’ Areia era do povo. O reggae se tornou um negócio e o bairro
virou a Península, assimilando todas as tribos, inclusive o reggae, que continua
resistindo mesmo que timidamente, mais informando sempre, que “a praia é de
todos, como o céu é do avião”.
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